Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez.
Caio Fernando Abreu
Não, eu não vou morar em você, habitar suas roupas, sair por aí sentindo o seu perfume, cantarolar, nas horas mais inapropriadas, uma música sua que depois, um dia, quem sabe, será nossa. Não vou passar os meus dias com um pensamento contínuo paralelo em você.
Não, eu não vou pensar em flores que combinam com seu jeito, nem entender os seus silêncios, os seus humores, seu vocabulário, seus gestos. Eu não quero reconhecer em qualquer lugar e em qualquer tempo, sua voz, seu gosto, seus sons, seus cheiros.
Não. De novo não. Nada de brilho nos olhos, de coração batendo em descompasso, de ter vontade de cantar debaixo do chuveiro, de que o tempo pare, de que o tempo voe.
Não é hora de encontrar sardas em cima de um nariz bonito, de cultivar descobertas a seu respeito e sobre qualquer mínimo detalhe de você.
Nada de prestar tanta atenção às coisas que você diz, no jeito que você fala, anda, gesticula, passa a mão pelos cabelos. Não, ainda não. É cedo e eu mal levantei.
Não, eu não vou pensar em flores que combinam com seu jeito, nem entender os seus silêncios, os seus humores, seu vocabulário, seus gestos. Eu não quero reconhecer em qualquer lugar e em qualquer tempo, sua voz, seu gosto, seus sons, seus cheiros.
Não. De novo não. Nada de brilho nos olhos, de coração batendo em descompasso, de ter vontade de cantar debaixo do chuveiro, de que o tempo pare, de que o tempo voe.
Não é hora de encontrar sardas em cima de um nariz bonito, de cultivar descobertas a seu respeito e sobre qualquer mínimo detalhe de você.
Nada de prestar tanta atenção às coisas que você diz, no jeito que você fala, anda, gesticula, passa a mão pelos cabelos. Não, ainda não. É cedo e eu mal levantei.
reminiscências
Enquanto andava distraída, pensou mais uma vez nas surpresas que o destino é capaz de fabricar.
Se perguntou como pode ser gostar de alguém que não se pode ter.
Com a alegria de quem encontra algo importante dentro de uma bolsa cheia, lembrou da possibilidade de, em algum lugar, mesmo lá onde o celular não alcança, a dona das mãos bonitas e dos cachos avermelhados saber a resposta.
Ela que fazia parte de uma dessas (boas) surpresas.
“A vida fica mais bonita quando a gente está gostando de alguém”
Ouviu sair de dentro dos lábios fininhos e cores-de-rosa, uma vez, enquanto voltavam de um dos deliciosos e inesquecíveis almoços.
E, menos de 24 horas depois, foi com uma surpresa desnorteante que se deu conta de que a moça, com o seu jeitinho quieto e calmo, reapareceu por entre os seus e-mails. E lá estava ela mais uma vez: discreta e sem a resposta. Depois sumiu.
Se perguntou como pode ser gostar de alguém que não se pode ter.
Com a alegria de quem encontra algo importante dentro de uma bolsa cheia, lembrou da possibilidade de, em algum lugar, mesmo lá onde o celular não alcança, a dona das mãos bonitas e dos cachos avermelhados saber a resposta.
Ela que fazia parte de uma dessas (boas) surpresas.
“A vida fica mais bonita quando a gente está gostando de alguém”
Ouviu sair de dentro dos lábios fininhos e cores-de-rosa, uma vez, enquanto voltavam de um dos deliciosos e inesquecíveis almoços.
E, menos de 24 horas depois, foi com uma surpresa desnorteante que se deu conta de que a moça, com o seu jeitinho quieto e calmo, reapareceu por entre os seus e-mails. E lá estava ela mais uma vez: discreta e sem a resposta. Depois sumiu.
tristeza
veio andando em minha direção.
Grande, forte, olhos esbugalhados, tosse alta e encatarrada.
Balbuciou algo apenas com o movimento dos lábios,
dali vazou um fio de voz rouca. Não entendi.
Seu corpo robusto era coberto de farrapos e os
cabelos eram brancos e desalinhados.
Com uma das mãos, unhas sujas e repugnantes,
apertou meu ombro, cerrou os lábios
e como num pré grito soprou de leve o meu rosto
com seu hálito quente.
Passou a mão por entre os meus cabelos e num
acesso de riso frouxo me abraçou com seus vários braços
dizendo baixo no meu ouvido: Não brinque comigo.
Grande, forte, olhos esbugalhados, tosse alta e encatarrada.
Balbuciou algo apenas com o movimento dos lábios,
dali vazou um fio de voz rouca. Não entendi.
Seu corpo robusto era coberto de farrapos e os
cabelos eram brancos e desalinhados.
Com uma das mãos, unhas sujas e repugnantes,
apertou meu ombro, cerrou os lábios
e como num pré grito soprou de leve o meu rosto
com seu hálito quente.
Passou a mão por entre os meus cabelos e num
acesso de riso frouxo me abraçou com seus vários braços
dizendo baixo no meu ouvido: Não brinque comigo.
eu também
Cantavam juntos aquela música que entristecia quando cantavam separados.
O carro estava com o cheiro dela.
Uma flor de presente. Girassol.
Um anel. Parece que quer casar.
Lua bonita, alta. Quase cheia.
O mesmo lugar de sempre. O mesmo vinho. O mesmo prato.
O mesmo pedido de novo. O mesmo sim. A mesma alegria de novo.
Uma carta para ser lida minutos antes de dormir.
Curiosa. Jurou que sim.
Beijos. Afeto transbordando. Amor, talvez.
Palavra pra quê, perguntava ele? Silêncio para quê?, respondia ela.
Disse que a primavera chegou. Que o dia foi bom. Que sentia saudade.
Disse que amanhã vai ter sol. Que o dia foi longo. Que gostou dos presentes.
Ficou tarde.
Beijos de tchau.
“Que minutos antes de dormir que nada!” Pensou.
Quase abriu a carta no elevador.
Lembrou da promessa. Resistiu.
Chegou em casa. banho, camisola, dentes escovados. deitou.
Antes de apagar a luz abriu a pequena carta com cuidado.
Envelope azul, papel reciclado.
No meio exato da página. Letra bonita.
Quero você, estava escrito.
Ela riu e pensou baixinho: Eu também.
O carro estava com o cheiro dela.
Uma flor de presente. Girassol.
Um anel. Parece que quer casar.
Lua bonita, alta. Quase cheia.
O mesmo lugar de sempre. O mesmo vinho. O mesmo prato.
O mesmo pedido de novo. O mesmo sim. A mesma alegria de novo.
Uma carta para ser lida minutos antes de dormir.
Curiosa. Jurou que sim.
Beijos. Afeto transbordando. Amor, talvez.
Palavra pra quê, perguntava ele? Silêncio para quê?, respondia ela.
Disse que a primavera chegou. Que o dia foi bom. Que sentia saudade.
Disse que amanhã vai ter sol. Que o dia foi longo. Que gostou dos presentes.
Ficou tarde.
Beijos de tchau.
“Que minutos antes de dormir que nada!” Pensou.
Quase abriu a carta no elevador.
Lembrou da promessa. Resistiu.
Chegou em casa. banho, camisola, dentes escovados. deitou.
Antes de apagar a luz abriu a pequena carta com cuidado.
Envelope azul, papel reciclado.
No meio exato da página. Letra bonita.
Quero você, estava escrito.
Ela riu e pensou baixinho: Eu também.
simples assim
Just love me, diz a estampa da camiseta em que me enfio antes de ir para a cama. O pecado do amor é se meter a pensar. Just love me – repito. Cala esse pensamento e ama. Ponto.
Simples assim.
a Cris sabe das coisas...
.
Simples assim.
a Cris sabe das coisas...
.
n o v i d a d e
Ela veio andando em minha direção. Tinha a boca mais bonita e os mais brancos dentes. As palavras saiam de dentro de um doce sorriso leve, sussurradas e agradáveis de ouvir, quando era possível, porque o mar batia forte e o vento fazia barulho.
Feliz bem-vinda felicidade novo outra amor chocolate vida mudança amora perfume você.
Apesar de saírem dali frases completas, eu só conseguia entender palavras soltas e ela falava cada vez mais perto do meu ouvido, cada vez mais suave.
Depois de um abraço demorado, apertou minha mão, abriu um belo e escancarado sorriso e me fitou com grandes olhos negros e brilhantes de tão feliz.
Ainda sorrindo, jogou a cabeça para trás deixando o vento balançar seus enormes cabelos negros, como quem transborda de tanta alegria, e encostando sua boca em minha orelha disse simples e pausadamente, como quem repete fazendo questão de ser entendido: Vem comigo, no caminho eu te explico.
Feliz bem-vinda felicidade novo outra amor chocolate vida mudança amora perfume você.
Apesar de saírem dali frases completas, eu só conseguia entender palavras soltas e ela falava cada vez mais perto do meu ouvido, cada vez mais suave.
Depois de um abraço demorado, apertou minha mão, abriu um belo e escancarado sorriso e me fitou com grandes olhos negros e brilhantes de tão feliz.
Ainda sorrindo, jogou a cabeça para trás deixando o vento balançar seus enormes cabelos negros, como quem transborda de tanta alegria, e encostando sua boca em minha orelha disse simples e pausadamente, como quem repete fazendo questão de ser entendido: Vem comigo, no caminho eu te explico.
Saúde!
Se por acaso eu
morrer do coração
É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva
Cheia de graça
Talvez ainda faça
Um monte de gente feliz
trecho de Saúde de Rita Lee
morrer do coração
É sinal que amei demais
Mas enquanto estou viva
Cheia de graça
Talvez ainda faça
Um monte de gente feliz
trecho de Saúde de Rita Lee
Lembro perfeitamente. Era uma quarta feira. Para ser bem precisa, era uma tarde de quarta feira de outono. Lá fora, uma tarde daquelas com temperatura agradável e céu azul sem nuvens.
Devia passar das 4 da tarde e ela sorriu para mim e perguntou:
- Você está indo para o treiler tomar aquele café!?
- Não. - eu respondi - Não sei muito bem para onde estou indo... Estou um pouco perdida.
Ela entrou no elevador junto comigo e disse:
- Então eu vou com você.
Devia passar das 4 da tarde e ela sorriu para mim e perguntou:
- Você está indo para o treiler tomar aquele café!?
- Não. - eu respondi - Não sei muito bem para onde estou indo... Estou um pouco perdida.
Ela entrou no elevador junto comigo e disse:
- Então eu vou com você.
rabiscado por
Melina Fontes
-
Terça-feira, Agosto 18, 2009
Marcadores:
recortes do cotidiano
Antigamente, se bem me lembro, a minha vida era um festim, onde se abriam todos os corações, corriam todos os vinhos. Uma noite, sentei a Beleza no meu colo.
trecho de Uma Estadia no Inferno, Rimbaud
Obrigada por estar na minha vida, Andrezinho, dividindo tão generosamente comigo a sua genialidade.
trecho de Uma Estadia no Inferno, Rimbaud
Obrigada por estar na minha vida, Andrezinho, dividindo tão generosamente comigo a sua genialidade.
posso estar só
Frio e chuva. O céu tem as mais espessas nuvens que eu já tive a oportunidade de ver. Claras de tão cinza, mesmo sendo madrugada, parecem azuis. Três blusas são insuficientes para me aquecer do frio que faz nessa cidade a essa hora. É tarde para quem ainda não dormiu e cedo para quem já acorda. E a alegria da solidão, essa que tenho tido um prazer assustador em ter como companhia, tem me escoltado pelos dias e noites. O que era inquietação virou contentamento. E eu que venho sentindo medo da satisfação mórbida da consciência de estar só, não saberia responder a pergunta que ninguém fez. Não permitiria ainda dividir espaços e momentos. É cedo para isso. A solidão não mais me assombra, me compraz. Não atormenta, alegra e absorve. Não mais queima, aquenta. Apavora o hábito da solidão e a constatação vem da inércia de me sentir aquecida - apesar da rajada de vento gélido que escoa pela fresta da janela aberta - pelo calor de um amorfo edredom colorido.
amélia e oscar
Ela abriu os olhos quando o sol ainda estava discreto numa
pontinha mínima no céu e um galo cantava num quintal qualquer. Ao seu lado, o lugar já vazio. Ele ainda não voltou ou já se foi...
Levantou com sua camisola já gasta. Pegou água no quintal para
escovar os dentes - aprendeu com a avó que dentes devem ser
escovados antes de qualquer outra coisa a ser feita por mais importante que ela pareça ser -, ferveu água para o café, acordou Jonas, Paulinho, Bárbara e Carolina com um beijo carinhoso em cada um. Pediu com muito carinho e paciência que se levantassem rápido para irem à escola. Estavam atrasados. Fez o café, esquentou o leite. Um pão com manteiga para cada um. Olhou Carolina e sua costumeira inabilidade em pentear os cabelos, Paulinho com os tênis calçados com pés trocados. Penteou uma, calçou corretamente o outro. Olhou o quarteto com tanta ternura e amor enquanto enxugava as mãos na barra da saia, que seus olhos se encheram de lágrimas. E ela sorriu pra eles e eles corresponderam imediatamente. Pegou todos pelas mãos, cantarolou um samba antigo enquanto desciam o morro.
Ponto de ônibus, ônibus, escola, volta pra casa, lava louça, passa roupa, varre casa, faz as camas, apronta janta, toma banho, perfume doce, sandália de salto, saia rodada, flor no cabelo, bilhete para Oscar: "Não posso mais, eu quero é viver na orgia"
pontinha mínima no céu e um galo cantava num quintal qualquer. Ao seu lado, o lugar já vazio. Ele ainda não voltou ou já se foi...
Levantou com sua camisola já gasta. Pegou água no quintal para
escovar os dentes - aprendeu com a avó que dentes devem ser
escovados antes de qualquer outra coisa a ser feita por mais importante que ela pareça ser -, ferveu água para o café, acordou Jonas, Paulinho, Bárbara e Carolina com um beijo carinhoso em cada um. Pediu com muito carinho e paciência que se levantassem rápido para irem à escola. Estavam atrasados. Fez o café, esquentou o leite. Um pão com manteiga para cada um. Olhou Carolina e sua costumeira inabilidade em pentear os cabelos, Paulinho com os tênis calçados com pés trocados. Penteou uma, calçou corretamente o outro. Olhou o quarteto com tanta ternura e amor enquanto enxugava as mãos na barra da saia, que seus olhos se encheram de lágrimas. E ela sorriu pra eles e eles corresponderam imediatamente. Pegou todos pelas mãos, cantarolou um samba antigo enquanto desciam o morro.
Ponto de ônibus, ônibus, escola, volta pra casa, lava louça, passa roupa, varre casa, faz as camas, apronta janta, toma banho, perfume doce, sandália de salto, saia rodada, flor no cabelo, bilhete para Oscar: "Não posso mais, eu quero é viver na orgia"
sonho II
um cheiro de pitanga me levava ao parque que eu costumava ir na infância. era dia, mas a lua estava cheia e alaranjada.
eu usava sandálias havaianas coloridas e trazia um coelho cor de rosa preso a uma coleira. eu e ele conseguíamos conversar por pensamento.
uma moça de pele bem branquinha e cabelos encaracolados me dava a mão para que eu atravessasse para o outro lado. Suas unhas eram bonitas, pintadas de vermelho e ela usava um anel do qual eu não conseguia tirar os olhos - por isso, não consegui ver seu rosto.
num determinado momento ela interrompeu o passeio e me vendou os olhos com um lenço de seda florido. começamos a andar bem mais rápido. alguém, não muito longe, tocava uma sonata no violão e o cheiro de pitanga ia ficando cada vez mais forte à proporção que íamos naquela direção.
o coelho me alertou que desviasse para não bater numa árvore. no susto tirei a venda dos olhos e recebi um abraço. a moça de mãos branquinhas era eu.
eu usava sandálias havaianas coloridas e trazia um coelho cor de rosa preso a uma coleira. eu e ele conseguíamos conversar por pensamento.
uma moça de pele bem branquinha e cabelos encaracolados me dava a mão para que eu atravessasse para o outro lado. Suas unhas eram bonitas, pintadas de vermelho e ela usava um anel do qual eu não conseguia tirar os olhos - por isso, não consegui ver seu rosto.
num determinado momento ela interrompeu o passeio e me vendou os olhos com um lenço de seda florido. começamos a andar bem mais rápido. alguém, não muito longe, tocava uma sonata no violão e o cheiro de pitanga ia ficando cada vez mais forte à proporção que íamos naquela direção.
o coelho me alertou que desviasse para não bater numa árvore. no susto tirei a venda dos olhos e recebi um abraço. a moça de mãos branquinhas era eu.
correspondência
Carta de verdade. Há muito tempo não recebia uma.
Papel, caneta, selo, envelope...
Mel,
Leio seu Blog e me atualizo nos seus desejos.
De vez em quando vou lá fora fumar e descubro o que o pequeno príncipe
quis dizer quando explica o que é CATIVAR... vejo vários Nandos, duas mil Marietas,
Lili e Eugênias, milhares. Só não vi Clarice (acho que essa é especial). Nenhum
daqueles gatos tem importância para mim, nenhum me cativou. Todos correm
perigo, mas sei que os seus estão seguros, alimentados e felizes nos seus
cativeiros. Odeio o óbvio, mas Exupéry é sempre atual quando fala de sentimentos,
saudade, perdas, dor, amor, impotência, solidão!??!?!
Falando de sentimentos, agora compreendo porque a gente precisa viver tanto.
Para alguns com EU... um ano parece séculos. Vive-se para ter chance de olhar o
"livro de respostas" e ficar alegre/triste porque não existe resposta nenhuma.
Vive-se para descobrir todos os podres da alma e do corpo e não poder fazer coisa
alguma e ainda assim continuar respirando e fazendo o que precisa ser FEITO. A festa
acaba mas alguém tem que lavar a louça.
Viver é também envelhecer, o inferno astral vai amenizando com o tempo “escuto as
sereias cantando e sei que elas não cantam para mim" T.S. Elliot. E eu, de domicilio
incerto, me pergunto sempre quando isso vai acabar?
O bem de viver/envelhecer É NÃO SABER DE NADA!!!
Sei que agora é preciso comprar canetas..."
Papel, caneta, selo, envelope...
Mel,
Leio seu Blog e me atualizo nos seus desejos.
De vez em quando vou lá fora fumar e descubro o que o pequeno príncipe
quis dizer quando explica o que é CATIVAR... vejo vários Nandos, duas mil Marietas,
Lili e Eugênias, milhares. Só não vi Clarice (acho que essa é especial). Nenhum
daqueles gatos tem importância para mim, nenhum me cativou. Todos correm
perigo, mas sei que os seus estão seguros, alimentados e felizes nos seus
cativeiros. Odeio o óbvio, mas Exupéry é sempre atual quando fala de sentimentos,
saudade, perdas, dor, amor, impotência, solidão!??!?!
Falando de sentimentos, agora compreendo porque a gente precisa viver tanto.
Para alguns com EU... um ano parece séculos. Vive-se para ter chance de olhar o
"livro de respostas" e ficar alegre/triste porque não existe resposta nenhuma.
Vive-se para descobrir todos os podres da alma e do corpo e não poder fazer coisa
alguma e ainda assim continuar respirando e fazendo o que precisa ser FEITO. A festa
acaba mas alguém tem que lavar a louça.
Viver é também envelhecer, o inferno astral vai amenizando com o tempo “escuto as
sereias cantando e sei que elas não cantam para mim" T.S. Elliot. E eu, de domicilio
incerto, me pergunto sempre quando isso vai acabar?
O bem de viver/envelhecer É NÃO SABER DE NADA!!!
Sei que agora é preciso comprar canetas..."
uma gentileza vale mais que muitas belezas
Muitas vezes quando observo alguém olho cuidadosa e benevolentemente os detalhes. Desde os pés (ou sapatos, se estiverem cobertos), as mãos, pêlos dos braços, contorno do nariz, dentes, maneira de falar, gestos, cheiros, tom de voz, tudo. E de tudo, o que mais me chama a atenção é a gentileza ou a falta dela. Observo antes de braços e pernas a forma que as pessoas tratam umas as outras. Quando o contato se alonga, quase nada me escapa e a minha parte generosa (sim, ela existe) se habituou a elogiar o que efetivamente me é agradável ao olfato e aos olhos.
Esse hábito deve ser comum, em maior ou menor grau, a outros seres humanos que dividem comigo espaço nesse planeta. Dessa minha característica, que não deve ser tão atípica assim, o que me parece esquisito é a recorrente observação acompanhada por pensamentos paralelos de que alguém ama aquela pessoa. De que deve haver pelo menos um ser humano ou um bicho de estimação no mundo que olha com carinho para aquela criatura que está á minha frente. De que aqueles olhos que estão bem ali diante de mim, aquele colo cheio de sardas ou aquela barba bem feita, são infinitamente desejados por alguém. Que aquele andar mocorongo, hábitos abjetos, tom de voz irritante, por mais que sejam impertinentes para o meu gosto, é querido por alguma pessoa em algum lugar do mundo.
Quando a gente ama alguém, deseja, quer, não é assim?! Achamos que o jeito de pronunciar determinada palavra se torna irresistivelmente erótica quando sai daquela boca, que aquele sorriso meio torto é extremamente charmoso e que são lindos aqueles pés, os mesmos que as nossas amigas acham um escândalo. O gostar nos deixa generosos, algumas vezes exageradamente generosos, diga-se de passagem. O fato é que a minimização (pessoal e intransferível) dos defeitos alheios é proporcional ao afeto e ao querer bem.
Entrei em contato com a parte mais cruel dessa minha característica na última manhã de sábado. Quando ia para a pós num ônibus praticamente vazio uma mulher sentou ao meu lado. Tinha passado uma quantidade exagerada de perfume, é bem verdade, o que tornou desagradável a nossa convivência num mesmo assento, sem que as janelas fossem abertas, apresar dos 18 graus marcados no relógio. Bonita. Trinta e poucos anos, estava muito bem vestida, maquiada com maestria e carregava, debaixo do braço, o novo livro de Chico Buarque. Mil pontos para ela, não fosse a falta de gentileza com a qual abordou o trocador ao passar na roleta e a forma grosseira que pediu que eu chegasse mais para lá - Confesso que eu estava meio esparramada olhando a Lagoa - . Mas quando olhei ao redor, constatei que existiam uns 25 lugares completamente vazios espalhados pelo ônibus, as mais variadas opções de assento: desde os da frente, até aqueles altos lá atrás... mas ela quis, com seu eau de parfum, sentar exatamente ali. E após me dizer meia dúzia de desaforos porque a janela estava aberta, resolveu cruzar as pernas sujando a minha calça limpinha.
Os incomodados que se mudem.
Aprendi desde pequena a identificar situações de perigo, mas só há muito pouco tempo entendi que algumas velem a pena enfrentar, outras, definitivamente, não. Fechei a janela e fui para o banco de trás concluir a minha teoria.
Observei mais um pouco seus gestos e formatos, cumprindo o protocolo íntimo, e vi que se tratava de uma moça com muitos atributos estéticos e pouca, muito pouca educação e nenhuma delicadeza.
No minucioso exame habitual vi que ela usava uma rechonchuda aliança na mão esquerda e eu pensei, como não poderia deixar de ser, que alguém, em algum lugar deste planeta redondo e curioso, deve gostar muito dela. Se admira e acha um charme o jeito que ela fala com as pessoas, isso aí eu já não sei. Mas quem sou eu para questionar a magnanimidade do olhar alheio?
Esse hábito deve ser comum, em maior ou menor grau, a outros seres humanos que dividem comigo espaço nesse planeta. Dessa minha característica, que não deve ser tão atípica assim, o que me parece esquisito é a recorrente observação acompanhada por pensamentos paralelos de que alguém ama aquela pessoa. De que deve haver pelo menos um ser humano ou um bicho de estimação no mundo que olha com carinho para aquela criatura que está á minha frente. De que aqueles olhos que estão bem ali diante de mim, aquele colo cheio de sardas ou aquela barba bem feita, são infinitamente desejados por alguém. Que aquele andar mocorongo, hábitos abjetos, tom de voz irritante, por mais que sejam impertinentes para o meu gosto, é querido por alguma pessoa em algum lugar do mundo.
Quando a gente ama alguém, deseja, quer, não é assim?! Achamos que o jeito de pronunciar determinada palavra se torna irresistivelmente erótica quando sai daquela boca, que aquele sorriso meio torto é extremamente charmoso e que são lindos aqueles pés, os mesmos que as nossas amigas acham um escândalo. O gostar nos deixa generosos, algumas vezes exageradamente generosos, diga-se de passagem. O fato é que a minimização (pessoal e intransferível) dos defeitos alheios é proporcional ao afeto e ao querer bem.
Entrei em contato com a parte mais cruel dessa minha característica na última manhã de sábado. Quando ia para a pós num ônibus praticamente vazio uma mulher sentou ao meu lado. Tinha passado uma quantidade exagerada de perfume, é bem verdade, o que tornou desagradável a nossa convivência num mesmo assento, sem que as janelas fossem abertas, apresar dos 18 graus marcados no relógio. Bonita. Trinta e poucos anos, estava muito bem vestida, maquiada com maestria e carregava, debaixo do braço, o novo livro de Chico Buarque. Mil pontos para ela, não fosse a falta de gentileza com a qual abordou o trocador ao passar na roleta e a forma grosseira que pediu que eu chegasse mais para lá - Confesso que eu estava meio esparramada olhando a Lagoa - . Mas quando olhei ao redor, constatei que existiam uns 25 lugares completamente vazios espalhados pelo ônibus, as mais variadas opções de assento: desde os da frente, até aqueles altos lá atrás... mas ela quis, com seu eau de parfum, sentar exatamente ali. E após me dizer meia dúzia de desaforos porque a janela estava aberta, resolveu cruzar as pernas sujando a minha calça limpinha.
Os incomodados que se mudem.
Aprendi desde pequena a identificar situações de perigo, mas só há muito pouco tempo entendi que algumas velem a pena enfrentar, outras, definitivamente, não. Fechei a janela e fui para o banco de trás concluir a minha teoria.
Observei mais um pouco seus gestos e formatos, cumprindo o protocolo íntimo, e vi que se tratava de uma moça com muitos atributos estéticos e pouca, muito pouca educação e nenhuma delicadeza.
No minucioso exame habitual vi que ela usava uma rechonchuda aliança na mão esquerda e eu pensei, como não poderia deixar de ser, que alguém, em algum lugar deste planeta redondo e curioso, deve gostar muito dela. Se admira e acha um charme o jeito que ela fala com as pessoas, isso aí eu já não sei. Mas quem sou eu para questionar a magnanimidade do olhar alheio?
ele e eu
Foram tantas palavras ditas sem escrúpulos e não parava de doer. Uma dor era bem aqui: uns cinco dedos acima do umbigo, uns três dedos abaixo dos seios, lá dentro, parece que que é onde fica o estômago, mas não é. Não pertence a categoria das dores físicas.
Doía forte num órgão novo que até aquele momento eu desconhecia a presença dentro de mim, ao mesmo tempo era como se fosse uma dor na alma buscando um jeito de se materializar. Doeu durante muito tempo e aqueles dez ou quinze minutos pareciam com horas e ele me olhava dentro dos olhos como se estivesse tentando me matar por meio de um magnetismo qualquer.
Aqueles olhos arregalados como num susto me fitavam com uma ira profunda. Àquela altura, eu já estava cansada de conhecer cada uma das veias avermelhadas de dentro dos seus olhos, todos os poros da sua testa e do seu nariz bonito, os fios grossos e desalinhados das suas sobrancelhas, o desenho dos seus lábios.
Não parecia acabar nunca aquele hipnotismo, e ele parecia querer sugar a minha própria vida, reduzi-la a algo qualquer que coubesse na palma da sua mão, onde ele seria capaz de esmagar até que não restasse uma poeira de mim.
Eu não conseguia sentir nada além da dor; medo, raiva, pena, arrependimento. Não sentia nada. Só doía.
Depois de longa pausa, cerrou os olhos, foi se afastando com calma, como uma serpente prestes a dar o bote indefectível, me olhou mais uma vez, agora de tão longe que a miopia não me permitia sequer enxergar os seus olhos, o suor formava pequenas bolhas na sua testa e fazia com que os cabelos ficassem grudados á sua cabeça.
Depois de uma pausa mínima ele disse com a voz mais doce que um homem é capaz de ter, que eu o havia partido em mil pedaços.
Saiu com jeito de quem não volta mais e a noite caiu toda de uma vez. Foi assim que eu me dei conta do incrível amálgama de contradições que eu sou: sensível e não obstante, tão insensível, imaginativa e não obstante, tão sem imaginação.
Doía forte num órgão novo que até aquele momento eu desconhecia a presença dentro de mim, ao mesmo tempo era como se fosse uma dor na alma buscando um jeito de se materializar. Doeu durante muito tempo e aqueles dez ou quinze minutos pareciam com horas e ele me olhava dentro dos olhos como se estivesse tentando me matar por meio de um magnetismo qualquer.
Aqueles olhos arregalados como num susto me fitavam com uma ira profunda. Àquela altura, eu já estava cansada de conhecer cada uma das veias avermelhadas de dentro dos seus olhos, todos os poros da sua testa e do seu nariz bonito, os fios grossos e desalinhados das suas sobrancelhas, o desenho dos seus lábios.
Não parecia acabar nunca aquele hipnotismo, e ele parecia querer sugar a minha própria vida, reduzi-la a algo qualquer que coubesse na palma da sua mão, onde ele seria capaz de esmagar até que não restasse uma poeira de mim.
Eu não conseguia sentir nada além da dor; medo, raiva, pena, arrependimento. Não sentia nada. Só doía.
Depois de longa pausa, cerrou os olhos, foi se afastando com calma, como uma serpente prestes a dar o bote indefectível, me olhou mais uma vez, agora de tão longe que a miopia não me permitia sequer enxergar os seus olhos, o suor formava pequenas bolhas na sua testa e fazia com que os cabelos ficassem grudados á sua cabeça.
Depois de uma pausa mínima ele disse com a voz mais doce que um homem é capaz de ter, que eu o havia partido em mil pedaços.
Saiu com jeito de quem não volta mais e a noite caiu toda de uma vez. Foi assim que eu me dei conta do incrível amálgama de contradições que eu sou: sensível e não obstante, tão insensível, imaginativa e não obstante, tão sem imaginação.
Andaram distraídos por anos a fio.
Era como se tivessem perdido muito tempo. A verdade é que ganharam.
Diziam-se grande amor da vida um do outro.
O tempo melhora as coisas e as pessoas, dizia ela, no caminho para o restaurante.
Lado a lado, ela conseguia ver de novo a raiz dos seus cabelos, o formato bonito da sua boca fininha como um risco cor de rosa e os seus olhos num tom bonito de cinza, por debaixo dos óculos. O cheiro era bom e ela talvez tivesse esquecido da voz. Era bonita, forte e suave.
Considerava-se em um momento irrepreensível de felicidade.
Ele era cuidadoso com ela ao atravessar as ruas, se mostrou curioso sobre os seus assuntos mais banais, tocou sua mão algumas vezes fingindo descuido e cantarolou uma musiquinha num francês meio espanholado. Ela ria por dentro e pediu vinho apesar do calor e disse em seguida o quanto é contraditória. Ele riu alto. Homens não precisam dissimular.
Conversaram muito. Ele tocava a sua perna a cada pergunta. Beijou diversas vezes sua mão, elogiou o esmalte, beijou seu pescoço, comentou sobre o perfume, lembraram de muitas histórias felizes daquele tempo. Na despedida, sem introdução especial, ele disse não. Justificou que o amor é imenso, mas que alguém, nem tão amado assim, havia chegado primeiro e que essas coisas não se desfazem assim, por nada.
Por nada. Esse por nada repetiu, sozinho, durante horas dentro da sua cabeça.
O fato é que por descuido ou por maldade ele disse aquilo que ela não conseguiu mais esquecer.
Foi dificil entender como motivos acessórios, como esses, podiam determinar as escolhas de alguém, que não era, o afeto, o mais importante, mas a conveniência.
Enquanto voltava para casa, ainda trôpega, um pouco pelo calor, um pouco pelo vinho e muito pela surpresa, se prometeu que nunca mais seria feliz por um motivo imaginário. Nem infeliz.
E foi então que começou a fazer tudo diferente.
Muito diferente.
*inspirado em fatos alheios reais e num trecho de um antigo post dela.
Era como se tivessem perdido muito tempo. A verdade é que ganharam.
Diziam-se grande amor da vida um do outro.
O tempo melhora as coisas e as pessoas, dizia ela, no caminho para o restaurante.
Lado a lado, ela conseguia ver de novo a raiz dos seus cabelos, o formato bonito da sua boca fininha como um risco cor de rosa e os seus olhos num tom bonito de cinza, por debaixo dos óculos. O cheiro era bom e ela talvez tivesse esquecido da voz. Era bonita, forte e suave.
Considerava-se em um momento irrepreensível de felicidade.
Ele era cuidadoso com ela ao atravessar as ruas, se mostrou curioso sobre os seus assuntos mais banais, tocou sua mão algumas vezes fingindo descuido e cantarolou uma musiquinha num francês meio espanholado. Ela ria por dentro e pediu vinho apesar do calor e disse em seguida o quanto é contraditória. Ele riu alto. Homens não precisam dissimular.
Conversaram muito. Ele tocava a sua perna a cada pergunta. Beijou diversas vezes sua mão, elogiou o esmalte, beijou seu pescoço, comentou sobre o perfume, lembraram de muitas histórias felizes daquele tempo. Na despedida, sem introdução especial, ele disse não. Justificou que o amor é imenso, mas que alguém, nem tão amado assim, havia chegado primeiro e que essas coisas não se desfazem assim, por nada.
Por nada. Esse por nada repetiu, sozinho, durante horas dentro da sua cabeça.
O fato é que por descuido ou por maldade ele disse aquilo que ela não conseguiu mais esquecer.
Foi dificil entender como motivos acessórios, como esses, podiam determinar as escolhas de alguém, que não era, o afeto, o mais importante, mas a conveniência.
Enquanto voltava para casa, ainda trôpega, um pouco pelo calor, um pouco pelo vinho e muito pela surpresa, se prometeu que nunca mais seria feliz por um motivo imaginário. Nem infeliz.
E foi então que começou a fazer tudo diferente.
Muito diferente.
*inspirado em fatos alheios reais e num trecho de um antigo post dela.
"Fequentemente eu amanhecia inquieto, ia acordá-la para verificar o que restava de Matilde no seu rosto. Não era loucura minha, Balbina também notava que cada dia você perdia mais um traço da mãe, e nesse passo já perdera todo o desenho original da boca, fora o negro dos olhos e a tez acastanhada, Era como se, na calada da noite, Matilde passasse para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez de vestidos no amário e joias na gaveta."
Trecho de Leite Derramado de Chico Buarque
Trecho de Leite Derramado de Chico Buarque
me falta vocabulário para falar sobre esse momento
rabiscado por
Melina Fontes
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Quinta-feira, Maio 07, 2009
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"...E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!
Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve, o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já não se vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento úmido no olhar"
Eça de Queiroz, O Primo Basílio - 1878
Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve, o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já não se vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento úmido no olhar"
Eça de Queiroz, O Primo Basílio - 1878
no ponto de ônibus
Oba! Ela gritou muito alto e com um empolgante "Uhuuu" no final.
As sandálias de tiras marrons deixavam à mostra os pés miúdos respingados de lama.
No sorriso, os dentes avermelhados, restos de caramelo da maçã do amor.
As bochechas rosadas, os fios de cabelos da franja presos à testa pelo suor, o brilho nos olhos azuis e os cílios lourinhos. Sorria com o corpo todo.
Tudo aquilo era a felicidade desmedida típica das alegrias de criança que quase adulto nenhum é capaz de sentir.
As sandálias de tiras marrons deixavam à mostra os pés miúdos respingados de lama.
No sorriso, os dentes avermelhados, restos de caramelo da maçã do amor.
As bochechas rosadas, os fios de cabelos da franja presos à testa pelo suor, o brilho nos olhos azuis e os cílios lourinhos. Sorria com o corpo todo.
Tudo aquilo era a felicidade desmedida típica das alegrias de criança que quase adulto nenhum é capaz de sentir.
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Melina Fontes
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Segunda-feira, Maio 04, 2009
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Disse que tinha medo de envelhecer e olhou para o outro lado tentando esconder as lágrimas, ainda que discretas, que brotavam do canto dos olhos. Com o indicador coçou o alto da cabeça, depois enxugou os olhos e me tomou pelo braço continuando a caminhada com aquela velha alegria que me ofertava momentos de felicidade desde a infância. Me sentou no banco no meio do jardim e discorreu sobre onde mora a juventude das pessoas. Enquanto ela falava das delícias da vida, eu observava sua pele branquinha, cada sulco, dos milhares que moram no seu rosto, nos cabelos alvos e na sua juventude nada discreta.
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Melina Fontes
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Quarta-feira, Abril 29, 2009
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Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
[A moça do sonho - Edu Lobo/Chico Buarque 2001]
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
[A moça do sonho - Edu Lobo/Chico Buarque 2001]
a formiga e o mar
Era pequena. Extraordinariamente pequena e avermelhada de bolinhas pretas.
Era chamada de petit pelas outras formigas de sua região.
Vivia linda e solitária embaixo da mangueira, gostava de poesia e de vento. Um dia, do alto, de longe, conheceu o mar.
A turba achava graça de suas descobertas. Ela achava graça da rotina das formigas daquele lugar.
Costumava dizer que ele, o mar, cantava. Ficava parado todo o tempo sob aquele céu grande e se movia e cantava só quando ela chegava.
Todos os dias ia visita-lo. Conversavam de longe. Passavam dias inteiros na companhia um do outro. Ele elogiava suas antenas ruivas, ela adormecia no meio da tarde com o seu canto.
Todas caçoavam da pequenina. “Louca!” gritavam quando ela passava com pétalas azuis para presentear o mar.
E ela ria. Ria das outras. Ria de felicidade.
Naquela noite, a lua no canto do céu, única testemunha daquele momento, viu formiga e mar se encontrarem.
Ele a aguardava imóvel e tranquilo. Sem ondas, sem correntes, sem marés. Alegrou-se com a sua chegada.
Ela falou do gosto salgado de seu sorriso branco e sorriu também.
Ele, com ondas cada vez maiores e canto cada vez mais alto tomou-a pela mão.
Ela entregou-lhe as pétalas, brancas dessa vez, e disse ‘sim’.
Era chamada de petit pelas outras formigas de sua região.
Vivia linda e solitária embaixo da mangueira, gostava de poesia e de vento. Um dia, do alto, de longe, conheceu o mar.
A turba achava graça de suas descobertas. Ela achava graça da rotina das formigas daquele lugar.
Costumava dizer que ele, o mar, cantava. Ficava parado todo o tempo sob aquele céu grande e se movia e cantava só quando ela chegava.
Todos os dias ia visita-lo. Conversavam de longe. Passavam dias inteiros na companhia um do outro. Ele elogiava suas antenas ruivas, ela adormecia no meio da tarde com o seu canto.
Todas caçoavam da pequenina. “Louca!” gritavam quando ela passava com pétalas azuis para presentear o mar.
E ela ria. Ria das outras. Ria de felicidade.
Naquela noite, a lua no canto do céu, única testemunha daquele momento, viu formiga e mar se encontrarem.
Ele a aguardava imóvel e tranquilo. Sem ondas, sem correntes, sem marés. Alegrou-se com a sua chegada.
Ela falou do gosto salgado de seu sorriso branco e sorriu também.
Ele, com ondas cada vez maiores e canto cada vez mais alto tomou-a pela mão.
Ela entregou-lhe as pétalas, brancas dessa vez, e disse ‘sim’.
Era o caule
E parecia ser a flor
Era o caule
Veste-se de blue
E um fio transparente costura-lhe asas e costas
Os pés
Traz escondidos calçando botas
Não voa
Não cumpre seu nome
Quer ser apenas azul e belo
Como é a paixão
Neide Arcanjo - no livro Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo
E parecia ser a flor
Era o caule
Veste-se de blue
E um fio transparente costura-lhe asas e costas
Os pés
Traz escondidos calçando botas
Não voa
Não cumpre seu nome
Quer ser apenas azul e belo
Como é a paixão
Neide Arcanjo - no livro Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo
Feriado. Frio, vento, cinza, chuva, muita chuva, e uma pontinha de
tristeza.
As vezes eu não consigo entender direito quem eu sou.
A (rua) Jardim Botânico virou um rio (rio tem onda? O que eu vejo da
minha janela tem) e vi de novo aquele filme lindo que sempre me faz
chorar, sem chorar. Nenhuma lágrima.
Em dias assim eu olho para mim e vejo como eu sou forte.
É em dias como esses que eu vejo que eu não sei nada sobre mim.
tristeza.
As vezes eu não consigo entender direito quem eu sou.
A (rua) Jardim Botânico virou um rio (rio tem onda? O que eu vejo da
minha janela tem) e vi de novo aquele filme lindo que sempre me faz
chorar, sem chorar. Nenhuma lágrima.
Em dias assim eu olho para mim e vejo como eu sou forte.
É em dias como esses que eu vejo que eu não sei nada sobre mim.
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Melina Fontes
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Terça-feira, Abril 21, 2009
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tempo da delicadeza
tempo da delicadeza
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu
trecho de Todo o sentimento de Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu
trecho de Todo o sentimento de Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987
Campeonato de suspiros. Ganhei. Fui premiada por conseguir colocar para fora um daqueles que vêm lá do profundo e saem como se contivesse ali toda dor. Dores não seguem seu caminho tão fácil assim, é bem verdade. Elas têm que ser tratadas com xícaras de chá servidas em bandejas bem bonitas com biscoitinhos para acompanhar, que é para que eles fiquem um pouco mais e sejam sentidas, para que saibamos de onde elas vêm, por que caminho chegaram e para onde vão.
realidade
seres coloridos cruzam meu caminho p/b.
há algum tempo encontrei essa dupla na cobal do Humaitá. delicados, alegríssos, bonitos e de educação exemplar, logo cedi os meus ombros - um pouco medrosos, confesso - onde ambos acabaram ficando por um bom tempo. é impressionante a beleza das cores desse bichinho. saquei a minha mais recente companheira, uma Nikon FE2, máquina fotográfica manual com a qual estava fazendo deliciosas aulas de fotografia e fiz, acredito, belas fotos. mas a máquina sumiu, meses depois, com o filme dentro. a minha sorte foi o registro de uma amiga com a sua máquina moderna.
hoje passei o dia lembrando do sonho da noite passada e jurava que tinha essas fotos no computador. achei! as melhores, que fiz com tanta dedicação e peraltice, não acredito que tenham sido reveladas... coisas que só Freud explica.

há algum tempo encontrei essa dupla na cobal do Humaitá. delicados, alegríssos, bonitos e de educação exemplar, logo cedi os meus ombros - um pouco medrosos, confesso - onde ambos acabaram ficando por um bom tempo. é impressionante a beleza das cores desse bichinho. saquei a minha mais recente companheira, uma Nikon FE2, máquina fotográfica manual com a qual estava fazendo deliciosas aulas de fotografia e fiz, acredito, belas fotos. mas a máquina sumiu, meses depois, com o filme dentro. a minha sorte foi o registro de uma amiga com a sua máquina moderna.
hoje passei o dia lembrando do sonho da noite passada e jurava que tinha essas fotos no computador. achei! as melhores, que fiz com tanta dedicação e peraltice, não acredito que tenham sido reveladas... coisas que só Freud explica.

sonho
um passarinho que eu levava no ombro para todos os lugares. parecia uma calopsita colorida, mas não era. triste, ela falava comigo sobre suas angústias mais profundas. a caminho do médico resolveu voar; simplesmente saiu voando prum céu azul. até o horizonte eu consegui acompanhar com os olhos, depois não sei mais. na tristeza de deixá-la ir percebi que eram minhas aquelas dores e angústias sobre a qual ela falava em preto e branco.
peculiarismos da nossa espécie

Enquanto caminhava revivia a chegada de cada um deles, pensava na força que exercem sobre mim e nos momentos mais difíceis nos quais olhei ao redor e lá estavam secretamente disponíveis. São cinco, mas parecem uma centena quando preciso de muito e um só quando preciso de pouco. Chegam a parecer nenhum quando eu preciso de solidão absoluta. Chegaram miúdos, trazendo momentos inesquecíveis e uma alegria despretensiosa. Orelhas enormes, miado de criança e os olhinhos mais assustados que eu já vi na vida. Um amor tão grande, tão bom, puro e verdadeiro que eu nem sabia que existia. Com eles aprendi sobre atenção, alongamento muscular, a funcionalidade da preguiça e do gostar desmedido que fica nas entrelinhas das relações do dia a dia. Esse gostar que é inversamente proporcional à quantidade de palavras faladas, porém do tamanho exato dos carinhos dispensados sem ponderar nem esperar pelas verdades escondidas. O tempo passou rápido ao lado deles. Quase suave. Foi a melhor relação que eu tive no estilo eu-tu de Buber*. Engraçado isso acontecer com eles. Talvez tenha sido assim justamente por ser eles e não por ser eu. Pensei em como escolhas são excludentes e fui dividir essas delicadezas com o gato branco que veio me receber feliz na soleira da porta de entrada, selando aquela amizade genuína com um beijo entre as orelhas.
*filósofo judeu austríaco cuja obra trata do verdadeiro encontro entre dois seres, o relacionamento eu-tu total e afetuoso em oposição ao encontro eu-isso que não valoriza o outro. consiste numa relação completa reciproca e, por definiçao, não pode ser unilateral.
mariana
No caminho de volta para casa sonhei que chovia flores coloridas e que o rosto dela aparecia por entre as nuvens, sorria para mim. Ela já era crescida mas seus dentes continuavam branquinhos como os da criança que ela era naquele tempo. Linda Mariana de cabelos afogueados e olhos azuis bem grandes. Cílios longos, boquinha rosada. Tanta ternura nos abraços e até naquelas mãos pequeninas tinham sardas marrom-avermelhadas. Ela me abraçava com força e com a saudade que é minha. Eu lembrava que era seu aniversário e sabia que ela estaria comemorando onde quer que estivesse.
Acordei em frente ao Parque Lage. Passei do ponto.
Acordei em frente ao Parque Lage. Passei do ponto.
tudo novo de novo
Esse deve ser o 3º ou 4º blog em 8 anos.
Transito entre longas fases de extrema criatividade e (mais longas ainda) fases de mais puro torpor com as palavras escritas. Nos momentos ‘não’ chego a esquecer a senha e... adeus blog velho. E eu começo tudo de novo, como está sendo agora. Não que eu tenha sido possuída por uma inspiração fantástica dessa vez, mas quem sabe se com um blog novo, ela não acaba dando as caras? Vamos ver!
Transito entre longas fases de extrema criatividade e (mais longas ainda) fases de mais puro torpor com as palavras escritas. Nos momentos ‘não’ chego a esquecer a senha e... adeus blog velho. E eu começo tudo de novo, como está sendo agora. Não que eu tenha sido possuída por uma inspiração fantástica dessa vez, mas quem sabe se com um blog novo, ela não acaba dando as caras? Vamos ver!
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Correu tanto e tão rápido que quase conseguiu fugir de si mesma. Ofegante, bochechas rosadas, muito suor, peito arfando. Enquanto escondia o porta retrato, pensou mais uma vez no diagnóstico: "Repertório de comportamento limitado". Quase riu, mas lembrou que felicidade mesmo é raro e as tristezas vem e vão.
Enquanto se olhava cuidadosa e benevolentemente no espelho, se deu conta do incrível amálgama de contradições que se tornou e falou alto, muito alto, quase gritando, que é preciso ter coragem até para ser feliz. Na garganta, sentiu o choro chegando. Água fria. Ducha forte. Suspiro. Entrou no banho com a certeza de que ninguém vai notar que ela jamais será a mesma.
Enquanto se olhava cuidadosa e benevolentemente no espelho, se deu conta do incrível amálgama de contradições que se tornou e falou alto, muito alto, quase gritando, que é preciso ter coragem até para ser feliz. Na garganta, sentiu o choro chegando. Água fria. Ducha forte. Suspiro. Entrou no banho com a certeza de que ninguém vai notar que ela jamais será a mesma.
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